Sobre sacrifício de animais em religiões: vale a pena lutar pela retirada de um parágrafo de uma lei bem estarista?

Por Maria Luiza Nunes – MGDA – Movimento Gaúcho de Defesa Animal

mgda

O Código Estadual de Proteção aos Animais/RS é, indiscutivelmente, uma lei bem estarista. E uma lei bem estarista muito ruim. Se alguma vez ela não foi “tão ruim assim”, deve ter sido quando pensaram em fazê-la, e isso há uns quinze anos ou mais. E aqui cabe um registro: o Código foi criado em uma época em que a discussão sobre abolicionismo, senciência e veganismo estava iniciando timidamente aqui no RS, se é que já tinha iniciado, e muitos dos que estão participando dessa discussão ainda comiam animais e derivados e não eram conscientes do que hoje os move para lutar.

É uma lei que foi retalhada e remendada durante sete anos dentro da Assembleia Legislativa.

É uma lei estéril, pois não trás nenhuma novidade… simplesmente repete artigos de leis federais.

É uma lei que não faz falta, nunca foi utilizada em nossas ações judiciais, e ficaria esquecida, como tantas outras, não fosse a introdução desse parágrafo único ao Art. 2º.  A lei não é boa, mas o parágrafo inserido a tornou muito pior.

Então por que valeria a pena lutar pela sua retirada, já que apenas deixaria uma lei bem estarista com sua redação original?

 Em primeiro lugar, pergunte a qualquer cabra criada para ser sangrada em uma noite de batuque, qual a opinião dela sobre defender uma lei bem estarista. Tenham certeza de que ela ficaria muito feliz em saber que pessoas preocupadas com a sua sorte, e com a sorte de todos os animais usados para esse fim, estavam mobilizadas para terminar com isso.

 Em segundo lugar, não é porque não podemos, ainda, tirar os animais dos matadouros, que devemos fechar os olhos para outras práticas cruéis e exploratórias. E não é porque a lei é bem estarista que não devemos nos aproveitar dela, se isso significar o salvamento de milhares de animais sacrificados diariamente em rituais e magias. Isso seria o cúmulo do preciosismo. Seria valorizar mais o discurso do que a vida desses milhares de animais, ou seja, a própria prática que se prega.

 Em terceiro lugar, e com toda justiça, ouve-se uma veemente crítica à falta de fiscalização para as leis protetivas. Mas é importante destacar que esse parágrafo só foi inserido na lei porque “donos” de casas de religião correram pra pedir ajuda aos deputados, pois várias casas já estavam sendo fechadas.

 Ruim, bem estarista e sem fiscalização, em um ano de existência, essa Lei fechou alguns “matadouros religiosos”. Para os animais, e para nós, esse fato já vale a luta.  Só que, em pouco tempo apareceu o tal parágrafo, e tudo voltou à estaca zero, ficamos sem a lei bem estarista que fechava casas de religião por maus tratos, graças à exceção incorporada ao texto da lei.

 Devemos ser abolicionistas, mas também devemos ser realistas. Nossa luta é diária, em todas as esferas, e não vamos resolver todos os problemas de uma vez.

 Aqui no Rio Grande do Sul nós lutamos, e vencemos, para impedir que os circos se apresentassem com animais. Seguindo esse raciocínio, não deveríamos ter levado essa luta adiante porque, afinal de contas, os rodeios ainda são permitidos. Quem faz essa crítica, parece que não viveu o movimento pela libertação animal nos últimos 10 ou 15 anos. Época em que não conseguíamos, sequer, registrar um boletim de ocorrência na polícia. Época em que não tínhamos internet, e todas as lutas eram no corpo a corpo, e a sociedade não via, e não respondia às urgências que os animais estavam vivendo.

 A luta hoje é difícil? É. Mas seria injusto não reconhecer o quanto andamos nesses últimos tempos. E por favor, deixemos a arrogância de lado, pois não foi só com bandeiras abolicionistas que avançamos, porque esses conceitos nem existiam. Foi com o trabalho e a persistência de gente que nem sabia a diferença entre abolição e bem estar. Foi falando, brigando, falando mais alto, cavando espaços mínimos em jornais e revistas, defendendo todos os animais, errando e acertando.

 A teoria e os conceitos são fundamentais, mas temos que cuidar muito, pois eles podem fazer com que tropecemos em nossos próprios passos. E se hoje o abolicionismo vive, presente e atuante, é porque gente sem noção teórica começou a abrir espaço há muito tempo atrás. Talvez seja difícil reconhecer isso, mas humildade é uma coisa difícil. Além do que, toda a discussão teórica é salutar e faz crescer, mas no campo da batalha, entendemos mais útil gente que ajude, e se não puder ajudar, que não estorve. Pois nesse momento, discussão sobre bem estarismo x abolicionismo não vai levar a lugar algum, que o digam os animais usados em rituais de oferendas e magias, que aguardam a libertação.

 É muito cômodo ficar teorizando.  Mas os animais seguem esperando uma chance pra viver, e viver com dignidade.  Eles dependem de nós, e não podemos nos dar ao luxo de ficar esperando. Esperando o quê? Leis abolicionistas? Ótimo, vamos brigar por elas, mas sabendo que essa luta será lenta e longa (basta ver a reação dos deputados gaúchos nesse caso do PL 21/2015. Sabem quando vamos conseguir uma lei abolicionista numa Assembleia composta por gente com o tipo de pensamento dos deputados que estão lá?).

 Não temos o direito de ficar esperando. Se surgir uma oportunidade de libertar os animais usados em rituais, devemos lutar por isso, mesmo que agora não se consiga libertar os que estão indo para os matadouros. Uma luta não invalida as outras.

 Essa luta é válida, e mais do que isso, ela é importante. Está abrindo espaços de discussão, de esclarecimento para uma parte grande da população que nem sequer pensava no assunto.

 Que fique claro que não estamos lutando pelo Código Estadual de Proteção aos Animais. Lutamos pelo direito que os animais têm a vida.

Lutamos contra o sacrifício de animais em rituais religiosos, que é a luta que se apresentou agora. Mas também lutamos contra universidades, contra ministérios, contra prefeituras… Lutamos onde tiver espaço, e onde tiver animal sofrendo.

E finalmente, uma discussão que não merece nem resposta, diz respeito a pessoas que se intitulam veganas estarem defendendo a morte de animais nos sacrifícios religiosos. Em primeiro lugar, não são veganas, porque não conseguiram ainda alcançar o sentido dessa palavra, que mais sagrada que os rituais, defende a vida. Em segundo lugar, num atestado de desconhecimento absoluto do que está acontecendo, pensam que os representantes das religiões de matriz africana defendem religião e tradição. Esse é o discurso, apenas o discurso.  Mas esse assunto fica para outro dia.

 

Maria Luiza Nunes – MGDA – Movimento Gaúcho de Defesa Animal

PARA LER MAIS: Para mais perspectivas sobre essas questões, acesse:

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

A ironia e contradição dos sacrifícios de animais em religiões de matriz africana

rituais

Um aspecto de leis abolicionistas ou protetivas do movimento pela igual consideração dos seres sencientes, como a lei que pretende impedir que animais sejam mortos em nome de crenças e cultos em religiões de matriz africana, é o caráter de analogia ou semelhança com as medidas protelatórias do passado, como as leis do ventre livre e dos sexagenários, por exemplo. Tais leis não resolviam todas as injustiças, mas sinalizavam o rumo histórico que ainda estamos em transição na direção de um contexto mais justo e igualitário. 

Um dos pontos de “desanalogia” entre o movimento pelos animais e o Movimento Negro, talvez diria o filósofo Naconecy, é que aquelas pessoas do passado, ainda que terrivelmente exploradas, não tinham seus corpos comidos e nem eram trazidos à vida para serem mortos e comidos.

O irônico e triste é que esses crimes em nome de religiões tem voz e imposição justamente num movimento de matriz africana, representantes de um povo que tanto sofreu e sofre exatamente esse mesmo tipo de injustiça: o preconceito e desigualdades por serem “diferentes” nas irrelevâncias ainda que semelhantes nas dimensões realmente relevantes. E ser diferente na cor da pele é tão irrelevante quanto ser diferente no formato de corpo ou diferente por ter nascido em outra espécie que não a humana. E o relevante é que todos  – nós e os animais – sofrem e que isso é ruim; e que todos desfrutam e que isso é bom.

Só que esse crime é um crime de toda a humanidade com todos os seus “tons” contra os animais. Não se trata de estigmatizar nenhum grupo, mas de avançar esse pequeno passo nessa tímida chance de tentar livrar os animais de apenas um desses destinos medonhos.

Nesse momento, retomo e colo abaixo o parágrafo de uma outra ocasião, pois sou tão contra os crimes em nome de cultos de religiões de matriz africana quanto os crimes cometidos em nome dos churrascos dos domingos. Acontece que é agora que temos a oportunidade de proibir um deles:

“Um crime não deixa de ser um crime só porque resolvemos chamar o crime de “liberdade de culto” ou outra coisa. E nem deixa de ser crime se a vítima é comida depois do ritual. O foco da justiça deve ser a vítima, e não o grupo que se sente injustiçado por não poder vitimar um inocente. E se ainda, infelizmente, cometemos o mesmo crime em nome da cultura culinária de comer animais, temos de lembrar que 2 errados não fazem 1 certo.”

7 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Animais explorados em nome de religiões

rituais

Um crime não deixa de ser um crime só porque resolvemos chamar o crime de “liberdade de culto” ou outra coisa. E nem deixa de ser crime se a vítima é comida depois do ritual. O foco da justiça deve ser a vítima, e não o grupo que se sente injustiçado por não poder vitimar um inocente. E se ainda, infelizmente, cometemos o mesmo crime em nome da cultura culinária de comer animais, temos de lembrar que 2 errados não fazem 1 certo.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Fica na tua e me deixa em paz com a minha carne

MinhaCarne

Captura de tela de cena inicial de Jogos Mortais 6

As brevíssimas considerações que farei abaixo não são exatamente de minha autoria, pois a ideia de tratar o assunto na forma que farei aqui é originada de outras fontes – não recuperei as referências, mas é tema já tratado com exaustão e com muita competência por diversos autores. Ainda assim, creio que repetições e releituras são sempre enriquecedoras.

“Fica na tua e me deixa em paz com a minha carne” é, provavelmente, um tipo de frase muito proferida por aqueles que acreditam que comer animais é uma mera escolha pessoal ou um direito. O raciocínio seria mais ou menos esse: você escolhe não comer carne e eu escolho comer; não me meto na sua escolha e você não se mete na minha. Por trás desse pensamento nitidamente prejudicado pelo preconceito do especismo [1], está acoplada ainda uma avaliação equivocada sobre imposições, o que impede muitos de nós de compreendermos a existência de imposições justas e imposições injustas [2].

Num nível descritivo ou ilustrativo, podemos mesmo afirmar que comer animais é uma escolha pessoal, do mesmo modo que matar e ingerir uma idosa indefesa ou um bebê [3] é igualmente uma escolha pessoal: o observador descreve a escolha de alguém que está a praticar um ato imoral.

Já no nível da moralidade, de forma alguma tais escolhas podem ser assim tão facilmente justificadas – se é que podem. Dizer “eu escolho pela morte e ingestão do corpo do outro” definitivamente não é uma frase encantada que dá permissão ao objetivo de comer alguém. Essa mágica não existe. Verbalizar isso não tem poder algum de tornar o ato algo minimamente decente e justo. Do mesmo modo, em nada se assemelha com uma inocente escolha pessoal como a de escolher a cor da escova de dentes.

“Me deixa em paz com a minha carne” é uma sentença que faz parecer que a carne em discussão seria a carne de propriedade de quem está a falar. Obviamente, tem algo muito atrapalhado nisso. Aquela carne não pertence a quem fala. É roubada. É roubada da pior maneira que podemos conceber um roubo, pois um animal, um ser capaz de experienciar o sofrimento e o desfrute de modo tão relevante quanto nós experienciamos, foi assassinado, seguramente após ter amargado uma vida miserável [4]. Teve seu corpo literalmente vampirizado por quem ainda se julga no direito de sugar a energia que pertencia ao portador do corpo e subjetividade – ou alma – que ali vivia, experienciava e se expressava.

Sou levado a pensar que mesmo se a carne fosse extraída do próprio corpo de quem nele vive, – como a imagem lá no topo ilustra – desse modo fazendo ter sentido o slogan “me deixa em paz com a minha carne”, uma vez que esse alguém estaria a cortar ou amputar a “sua carne” e partes do seu próprio corpo para ingestão, teríamos fortes razões para impedir esse ato que arrisco a categorizar como gravemente patológico.

Se descarnar o nosso próprio corpo é coisa quase impossível de não julgar como uma séria patologia, desse modo, desde uma postura ética que nossa condição humana nos permite e exige, podemos constatar o quão doentio é o nosso contexto em que é quase regra requerer com contaminada exaltação até mesmo a carne que não nos pertence.

Referências:

[1]: O que é especismo? Disponível em: http://www.anda.jor.br/06/06/2014/o-que-e-especismo

[2]: A acusação de imposição. Disponível em: http://www.anda.jor.br/03/09/2014/a-acusacao-de-imposicao

[3]: O caso do bebê eterno. Disponível em: http://www.anda.jor.br/30/04/2014/o-caso-do-bebe-eterno

[4]: http://www.pecuaria.info/

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

O retrato de um gaúcho covarde

tradicao

Imagine dois homens covardes, cada qual montado sobre um cavalo. Numa arena projetada para encarcerar o mais fraco, eles perseguem um filhotinho, um cachorrinho aterrorizado. O cãozinho, meio descabelado e com olhar confuso, foi forçado a estar ali sob o sol ardente ou chuva incômoda, longe dos cuidados de sua mãe ou cuidador. É rejeitado pelos olhares indiferentes da arquibancada sedenta pela tortura: tem que encarar sozinho um único destino.

Os covardes atingem o objetivo inicial, que é encurralar o pobrezinho assustado que só tentava fugir em desespero. Montados sobre os cavalos, alinhados cada um de um lado, fazem com que os equinos submetidos esmaguem as costelas do cãozinho para que ele se renda e siga o caminho ditado pelos covardes. É a paleteada!

A parte final do espetáculo da patifaria, que é derrubar o castigado em desespero, amarrar suas pernas e extirpar seu saco escrotal a sangue frio com faca afiada, é apenas reservado para os mais achegados nessa cultura dantesca. Mas a parte verdadeiramente final é celebrada nas churrascarias da querência amada, quando os pedaços do corpo do filhote com morte matada, na base da degola cruenta, são comidos salgados aos nacos como se nada mais existisse para comer num mundo que clama por justiça e paz. Esvaiu-se, assim, gota-a-gota de sangue duma garganta rasgada em agonia, a vida de alguém que como nós sabia sofrer e só queria viver em paz.

Mas o leitor deve estar se perguntando: “mas por qual razão o título sugere que o tal gaúcho seria covarde, já que ele comete a covardia da paleteada só com os filhotinhos das vacas, mas não com os filhotinhos caninos?”

A resposta é que o sofrimento é ruim, independente de quem está a sofrer. É injusto e covarde provocar sofrimento seja num cão, num bezerro ou em mim ou em você, leitor. O exemplo do cão, ao invés do filhote da vaca tão tradicionalmente torturado, serve apenas para revelar o poder que uma tradição tem de nos cegar para torturas que jamais aceitaríamos se as vítimas fossem nós ou aqueles que levamos em consideração com igualdade, como nossos amados cãezinhos que precisam muito do nosso zelo. Mas qual é a diferença quando o que está em jogo é a capacidade de sofrer? O formato externo dum corpo? O bezerrinho sofre menos apenas porque tem um formato de corpo diferente do cão?

Mas existem aqueles que vão esbravejar: “mas isso é parte da nossa cultura e da nossa tradição!” Eu responderia para esses: “mas desde quanto a tortura deixou de ser tortura só porque resolvemos chamar a tortura de cultura ou tradição?”

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Foto: Divulgação

Ainda que seja incapaz de raciocinar como um adulto, um bebê recém-nascido não é indiferente ao que lhe acontece. Ele pode ser [1] prejudicado pela presença do sofrimento, que é algo ruim em si mesmo. Também pode ser prejudicado pela ausência da felicidade, como nos casos de morte prematura, quando deixa de experimentar tudo de bom que a vida pode proporcionar agora e no futuro. E pode ser beneficiado quando vive situações de felicidade e quando não existe a presença do sofrimento. Ou seja, independente de qualquer inteligência ou racionalidade, um bebê é um ser capaz de ser prejudicado ou beneficiado, pois é um ser capaz de experimentar sensações. Os pais e mães sabem muito bem disso. O bebê é capaz de sofrer e de desfrutar!

Mas vamos imaginar o caso do bebê eterno: o bebê eterno seria o ser na condição de bebê para sempre. Nunca evoluiria para um adulto inteligente e racional. Sua existência seria pautada na possibilidade de desfrutar e sofrer, como vimos acima.

Contudo, se os bebês normais recebem toda a consideração merecida em virtude de poderem ser prejudicados ou beneficiados, o bebê eterno mereceria menos consideração só porque não evoluiria para estágios mentais mais aprimorados? Somos levados a crer que dar menos consideração ao bebê eterno seria um grave erro. O bebê eterno mereceria a mesma consideração sim, pois sofrer é ruim e desfrutar é bom, independente da capacidade intelectual do ser e da sua possibilidade de evolução.

Mas se fosse um grave erro desconsiderar o bebê eterno, não seria também um grave erro desconsiderarmos outros seres capazes de sofrer e desfrutar, como os animais? Afinal, o bebê eterno assim como os animais são seres capazes de sofrer e desfrutar e com uma racionalidade diferente de um humano adulto. E sabemos que ser mais ou menos inteligente não diminui o sofrimento de uma corte, pancada ou tortura. Sofrer é ruim. É o que tem de pior na vida, seja você um Einstein ou não.

Estaríamos nós condenando seres tão merecedores de consideração ao inferno dos matadouros e frigoríficos? Condenando eles a serem trancafiados em jaulas minúsculas para serem mortos a pancadas, choques elétricos, degolados e esquartejados para que possamos mastigá-los e engoli-los cozidos, assados ou em molhos temperados em nome de um breve prazer do paladar? Eles são bebês impotentes perante nós. E o que nós somos perante eles?

Nutricionalmente não existem mais desculpas, pois todos os profissionais da saúde já bem atualizados sabem que uma dieta isenta de produtos animais é saudável, recomendável e totalmente possível. E eticamente o que devemos fazer a partir de agora?

Referências:
[1] Como definir senciência e por que ela importa? Disponível em: http://especismonao.net/como-definir-senciencia-e-por-que-ela-importa/

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

O caso do ladrão de órgãos

Considere o seguinte dilema na forma de um experimento mental:

“Suponha que você só pode sobreviver se conseguir órgãos novos. Então, você precisa de transplantes de órgãos. Na realidade, precisa continuamente de transplantes de órgãos, pois você é um tipo de ser que cada órgão perde a função a cada pequeno período de tempo. Digamos que agora 3 dos seus órgãos estão falhando e não existem doadores. Nunca existem doadores. Suponha que a única maneira de continuar vivo será assassinando algum semelhante desconhecido, roubando os seus órgãos e transplantando-os para o seu corpo. Apenas sobreviverá, até seu fim “natural”, se roubar partes dos corpos de outros para colocar no seu próprio corpo. Sempre.”

Essa é uma analogia para a condição infernal presente no mundo selvagem, onde animais obrigatoriamente carnívoros ou predadores precisam necessariamente matar das maneiras mais horríveis (por estarem, sem culpa alguma, predispostos aos comportamentos “programados” pela “loteria da natureza”) os seres que tiveram o azar de vir ao mundo e acabarem sendo predados nessas situações macabras onde, muitas vezes, são comidos vivos e em total desespero de dor e angústia.

Essa realidade presente no mundo natural acaba fazendo dos frigoríficos, em comparação, lugares relativamente menos piores para alguém, seja quem for, ser morto. Mesmo assim, os frigoríficos e matadouros são lugares monstruosos onde assassinatos terríveis acontecem sem parar, dia e noite, para que pedaços, nacos, articulações e órgãos de animais sejam colocados no mercado para o consumo humano.

Ao mesmo tempo, o experimento mental acima é uma falsa comparação para humanos comedores de animais da atualidade e que residem em locais não inóspitos como cidades e áreas rurais, pois nós não somos obrigatoriamente carnívoros (não precisamos comer animais e podemos ser vegetarianos por compaixão e uso pleno da razão), ou seja, podemos optar moralmente entre sermos “ladrões de órgãos” ou não.

Se temos a opção de não sermos “ladrões de órgãos”, como podemos legitimar moralmente esse terrível roubo das carnes dos corpos de animais? Não estamos em dilema algum para sequer tentar justificar esses assassinatos hediondos por pancadas, choques elétricos e degolas.

Contudo, obviamente, esse pequeno texto apenas terá sentido para o leitor que já está começando a perceber (e para todos os leitores que já sabem disso) que temos todas as razões para considerarmos igualmente e com máxima seriedade todos aqueles que são capazes de sofrer e desfrutar, independente se a “loteria natural” os “trouxe” ao mundo como humanos ou não.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized