Você, hipócrita, não salve os beagles! E seja um de nós!

Num desses jornais televisivos da madrugada, um comentarista fez o discurso padrão da defesa da tortura de uns para benefício de outros (discurso que julgo criminoso – termo que vou repetir aqui). Estou aqui também a falar da exploração de animais nas pesquisas em laboratórios e do caso do Instituto Royal, que é emblema atual desses crimes doutrinados na maioria das Universidades e com legislação que protege tais crimes e promove um corporativismo cego e horrendo.

Contudo, o comentarista está de parabéns por lembrar, em rede nacional, que os animais assassinados para serem comidos sofrem terrores tão perversos (ou mais) quanto os torturados em laboratórios, ainda que tenha dito isso para acusar de hipocrisia aqueles que defendem o fim das torturas em laboratório e consomem animais na alimentação.

De todo modo, o comentarista precisa ser advertido que uma pessoa que come animais pode e deve sim se manifestar contra as torturas de laboratório. O fato de essa pessoa estar errada na prática de condenar animais à morte para se alimentar dos corpos deles não invalida sua postura correta de se posicionar contra as torturas em laboratórios. Por não entender essa distinção básica, o comentarista apelou para o argumento da hipocrisia (como tem feito diversas outras pessoas equivocadas e, também, com exagerada frequência, as inúmeras pessoas inescrupulosas). Precisamos avisar que esse argumento ou falácia da hipocrisia apenas fala sobre as incoerências do agente, mas não monta um argumento para invalidar o que é o certo a se fazer. É o típico recurso raso, malicioso e enganador (e criminoso) de focar o discurso em como as coisas “são ou tem sido” no mundo, mas que não dizem nada sobre “como deveriam ser ou como seria mais justo que fossem”. E exemplos disso seriam infindáveis, basta ler os textos dos reacionários embrutecidos (e criminosos) tentando relativizar e eternizar o mal uma vez que ainda não encontramos todas as formas de evitá-lo.

Para exemplificar apenas o primeiro ponto sobre a incongruência de defender algo e agir diferente, penso que essa questão serve: será que um assassino está errado ao falar do erro de assassinar? Eu penso que não, não está errado em falar do certo. Mas o assassino diz o certo e age errado.

Por isso, não podemos parar aqui. Precisamos e devemos ir além.

Vamos supor que um pesquisador professe o erro de torturar animais sencientes (seres capazes de sofrer e desfrutar), seres únicos e insubstituíveis, para buscar benefícios para outros seres únicos e insubstituíveis (torturar uns para benefício de outros). O pesquisador estaria certo na sua defesa pelo fim das atrocidades nos laboratórios que torturam animais, mas continuaria a agir de forma errada. A índole dele estaria revelada como, no mínimo, uma fraqueza de caráter, ainda que isso não invalidasse sua postura correta no discurso. Mas, ainda assim, ele continuaria agindo na prática do mal.

Alguém poderia acusá-lo de ser hipócrita, com razão. Mas isso apenas revelaria a incoerência e condição dele, mas não teria o poder de derrubar o que ele professa, uma vez que o que ele professa é o certo e o justo (ele professa o erro de torturar seres sencientes).

O que quero dizer é que, ainda que seja assim, ainda que esse pesquisador professe o certo e se comporte de maneira errada, outros agentes cientes disso teriam todas as razões e o dever moral para impor e obrigar ele a não ter liberdade para continuar a agir do modo errado, embora preservando o direito e o dever dele de proclamar o que é certo.

Então, as pessoas que ainda consomem animais em busca de nutrientes e prazer gustativo e que são contra os experimentos, estão corretas em ser contra os experimentos, mas erradas em condenar animais à morte na alimentação. Porque uma coisa é justa e a outra não é. Essas mesmas pessoas precisam entender que é um dever buscar modos de erradicar a liberdade de decretar injustamente a morte de outros seres. Essa busca de justiça é a coisa certa a se fazer.

Para encerrar, meu objetivo, nesse momento, foi de colaborar com o tópico “O debate sobre a moralidade da experimentação animal: o que é relevante e o que não é” do Mestre em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luciano Carlos Cunha, disponível em: http://www.anda.jor.br/20/10/2013/debate-moralidade-experimentacao-animal-relevante-nao

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