O caso do ladrão de órgãos

Considere o seguinte dilema na forma de um experimento mental:

“Suponha que você só pode sobreviver se conseguir órgãos novos. Então, você precisa de transplantes de órgãos. Na realidade, precisa continuamente de transplantes de órgãos, pois você é um tipo de ser que cada órgão perde a função a cada pequeno período de tempo. Digamos que agora 3 dos seus órgãos estão falhando e não existem doadores. Nunca existem doadores. Suponha que a única maneira de continuar vivo será assassinando algum semelhante desconhecido, roubando os seus órgãos e transplantando-os para o seu corpo. Apenas sobreviverá, até seu fim “natural”, se roubar partes dos corpos de outros para colocar no seu próprio corpo. Sempre.”

Essa é uma analogia para a condição infernal presente no mundo selvagem, onde animais obrigatoriamente carnívoros ou predadores precisam necessariamente matar das maneiras mais horríveis (por estarem, sem culpa alguma, predispostos aos comportamentos “programados” pela “loteria da natureza”) os seres que tiveram o azar de vir ao mundo e acabarem sendo predados nessas situações macabras onde, muitas vezes, são comidos vivos e em total desespero de dor e angústia.

Essa realidade presente no mundo natural acaba fazendo dos frigoríficos, em comparação, lugares relativamente menos piores para alguém, seja quem for, ser morto. Mesmo assim, os frigoríficos e matadouros são lugares monstruosos onde assassinatos terríveis acontecem sem parar, dia e noite, para que pedaços, nacos, articulações e órgãos de animais sejam colocados no mercado para o consumo humano.

Ao mesmo tempo, o experimento mental acima é uma falsa comparação para humanos comedores de animais da atualidade e que residem em locais não inóspitos como cidades e áreas rurais, pois nós não somos obrigatoriamente carnívoros (não precisamos comer animais e podemos ser vegetarianos por compaixão e uso pleno da razão), ou seja, podemos optar moralmente entre sermos “ladrões de órgãos” ou não.

Se temos a opção de não sermos “ladrões de órgãos”, como podemos legitimar moralmente esse terrível roubo das carnes dos corpos de animais? Não estamos em dilema algum para sequer tentar justificar esses assassinatos hediondos por pancadas, choques elétricos e degolas.

Contudo, obviamente, esse pequeno texto apenas terá sentido para o leitor que já está começando a perceber (e para todos os leitores que já sabem disso) que temos todas as razões para considerarmos igualmente e com máxima seriedade todos aqueles que são capazes de sofrer e desfrutar, independente se a “loteria natural” os “trouxe” ao mundo como humanos ou não.

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