O retrato de um gaúcho covarde

tradicao

Imagine dois homens covardes, cada qual montado sobre um cavalo. Numa arena projetada para encarcerar o mais fraco, eles perseguem um filhotinho, um cachorrinho aterrorizado. O cãozinho, meio descabelado e com olhar confuso, foi forçado a estar ali sob o sol ardente ou chuva incômoda, longe dos cuidados de sua mãe ou cuidador. É rejeitado pelos olhares indiferentes da arquibancada sedenta pela tortura: tem que encarar sozinho um único destino.

Os covardes atingem o objetivo inicial, que é encurralar o pobrezinho assustado que só tentava fugir em desespero. Montados sobre os cavalos, alinhados cada um de um lado, fazem com que os equinos submetidos esmaguem as costelas do cãozinho para que ele se renda e siga o caminho ditado pelos covardes. É a paleteada!

A parte final do espetáculo da patifaria, que é derrubar o castigado em desespero, amarrar suas pernas e extirpar seu saco escrotal a sangue frio com faca afiada, é apenas reservado para os mais achegados nessa cultura dantesca. Mas a parte verdadeiramente final é celebrada nas churrascarias da querência amada, quando os pedaços do corpo do filhote com morte matada, na base da degola cruenta, são comidos salgados aos nacos como se nada mais existisse para comer num mundo que clama por justiça e paz. Esvaiu-se, assim, gota-a-gota de sangue duma garganta rasgada em agonia, a vida de alguém que como nós sabia sofrer e só queria viver em paz.

Mas o leitor deve estar se perguntando: “mas por qual razão o título sugere que o tal gaúcho seria covarde, já que ele comete a covardia da paleteada só com os filhotinhos das vacas, mas não com os filhotinhos caninos?”

A resposta é que o sofrimento é ruim, independente de quem está a sofrer. É injusto e covarde provocar sofrimento seja num cão, num bezerro ou em mim ou em você, leitor. O exemplo do cão, ao invés do filhote da vaca tão tradicionalmente torturado, serve apenas para revelar o poder que uma tradição tem de nos cegar para torturas que jamais aceitaríamos se as vítimas fossem nós ou aqueles que levamos em consideração com igualdade, como nossos amados cãezinhos que precisam muito do nosso zelo. Mas qual é a diferença quando o que está em jogo é a capacidade de sofrer? O formato externo dum corpo? O bezerrinho sofre menos apenas porque tem um formato de corpo diferente do cão?

Mas existem aqueles que vão esbravejar: “mas isso é parte da nossa cultura e da nossa tradição!” Eu responderia para esses: “mas desde quanto a tortura deixou de ser tortura só porque resolvemos chamar a tortura de cultura ou tradição?”

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4 Comentários

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4 Respostas para “O retrato de um gaúcho covarde

  1. Texto fortíssimo, Juliano Zabka! Na semana passada assisti a dois curtas sobre maus tratos aos animais em um festival independente. Por mais impactantes que fossem – e eram! – as imagens retratadas não eram mais fortes do que o que acabo de ler aqui. Desculpe se me alongo no comentário, mas sou professora e me ressinto muito do descaso que a garotada tem com a leitura. Obviamente, não é só culpa dela. É resultado de muitas coisas. O que eu queria dizer depois desse palavratório, que virou desabafo é que NADA substitui o texto escrito! A imagem mental que criamos a partir da narrativa escrita é fundamental para a imaginação, a criatividade, o desenvolvimento da escrita. Infelizmente, está muito difícil nadar contra a maré e conseguir fazer com que os adolescentes leiam ou entendam o que leram. Mas vamos em frente porque esse texto lindo e comovente tem que ser compartilhado. Grande abraço. Georgia Barbosa.

  2. Juliano Zabka

    Oi, Georgia Barbosa! Muito grato pelas palavras e pela consideração! Realmente é muito difícil alcançarmos as pessoas, pois somos todos muito seletivos com relação ao que “consumimos” como informação, tem também as defesas que criamos quando as informações que recebemos entram em conflito com nossas “crenças” e valores herdados, o período da vida, o contexto atual onde não estamos mais tão dispostos para a leitura de textos longos e a lista deve ser longa. Eu não estou com o link agora, mas recentemente foi feita uma pesquisa que chegou na conclusão que imagens fortes aliadas aos argumentos também fortes sobre as razões que deveriam nos levar a considerar os animais com igualdade seria a combinação mais efetiva para educar as pessoas sobre os crimes contra os animais, embora a pesquisa fique, igualmente, sujeita as críticas. Mas seguimos na luta! Um grande abraço e obrigado novamente pelos elogios!

  3. Miriam de Souza Guerra Cunha

    Juliano, você, mais uma vez, foi perfeito. A sua forma de descrever a agonia, o martírio do animalzinho, toca fundo na alma e pode levar até àqueles mais indiferentes ao sofrimento dos animais à reflexão e ao questionamento sobre essas práticas abomináveis. Você diz tanto do que eu sinto mas não consigo explicar! Amei!!!

  4. Juliano Zabka

    Muito obrigado mais uma vez pelas palavras e elogios Miriam! É bom saber que posso estar conseguindo contribuir para mudar alguma coisa. Um grande abraço!

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