A ironia e contradição dos sacrifícios de animais em religiões de matriz africana

rituais

Um aspecto de leis abolicionistas ou protetivas do movimento pela igual consideração dos seres sencientes, como a lei que pretende impedir que animais sejam mortos em nome de crenças e cultos em religiões de matriz africana, é o caráter de analogia ou semelhança com as medidas protelatórias do passado, como as leis do ventre livre e dos sexagenários, por exemplo. Tais leis não resolviam todas as injustiças, mas sinalizavam o rumo histórico que ainda estamos em transição na direção de um contexto mais justo e igualitário. 

Um dos pontos de “desanalogia” entre o movimento pelos animais e o Movimento Negro, talvez diria o filósofo Naconecy, é que aquelas pessoas do passado, ainda que terrivelmente exploradas, não tinham seus corpos comidos e nem eram trazidos à vida para serem mortos e comidos.

O irônico e triste é que esses crimes em nome de religiões tem voz e imposição justamente num movimento de matriz africana, representantes de um povo que tanto sofreu e sofre exatamente esse mesmo tipo de injustiça: o preconceito e desigualdades por serem “diferentes” nas irrelevâncias ainda que semelhantes nas dimensões realmente relevantes. E ser diferente na cor da pele é tão irrelevante quanto ser diferente no formato de corpo ou diferente por ter nascido em outra espécie que não a humana. E o relevante é que todos  – nós e os animais – sofrem e que isso é ruim; e que todos desfrutam e que isso é bom.

Só que esse crime é um crime de toda a humanidade com todos os seus “tons” contra os animais. Não se trata de estigmatizar nenhum grupo, mas de avançar esse pequeno passo nessa tímida chance de tentar livrar os animais de apenas um desses destinos medonhos.

Nesse momento, retomo e colo abaixo o parágrafo de uma outra ocasião, pois sou tão contra os crimes em nome de cultos de religiões de matriz africana quanto os crimes cometidos em nome dos churrascos dos domingos. Acontece que é agora que temos a oportunidade de proibir um deles:

“Um crime não deixa de ser um crime só porque resolvemos chamar o crime de “liberdade de culto” ou outra coisa. E nem deixa de ser crime se a vítima é comida depois do ritual. O foco da justiça deve ser a vítima, e não o grupo que se sente injustiçado por não poder vitimar um inocente. E se ainda, infelizmente, cometemos o mesmo crime em nome da cultura culinária de comer animais, temos de lembrar que 2 errados não fazem 1 certo.”

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7 Comentários

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7 Respostas para “A ironia e contradição dos sacrifícios de animais em religiões de matriz africana

  1. Sandra Rodrigues

    Não temos o direito de tirar a vida. A coisa fica ainda pior quando se faz isso para agradar uma entidade para se ter algo em troca. Tenho dó de pessoas assim.

  2. Reinaldo

    Então se os animais são ‘seres sencientes’, este grupo de ‘abolicionistas animais’ poderiam acabar com as tradições como o churrasco, o rodeio e principalmente fechar os frigoríficos, onde os centenas de bichanos sofrem diariamente durante sua curta vida, também passam por um ritual de abate que demoram horas, mas que, por um milagre morrem sem sentir dor. Fechem também restaurantes que servem carne. Ou por acaso animal não percebe que está no corredor da morte para alimentar os lucros e o consumidor?

  3. E com todo o blá blá blá sobre direitos ao assassinato devido as tradições ou ao respeito as tradições diferentes da nossa (qualquer que seja a cultura ou tradição), só o que rola é distorção e demagogia e fim de tentar se justificar. Porque ficou me parecendo pelo comentário da Liege quanto ao texto, que noções de compaixão e de justiça são exclusividade de europeus. O que é uma coisa muito preconceituosa e não concordo. E isto não está no texto com toda a certeza. A única coisa que não se leva em conta é a tradição das vítimas em manterem-se vivas, que é um direito delas. Fico me perguntando o que vai acontecer se os “brancos” descendentes de europeus e os católicos decidirem resgatar as suas tradições já que é plenamente justificável pelo que tenho lido por aí… O mesmo “apreço” que tenho por racistas eu tenho por especistas! Ainda mais os demagogos e oportunistas.

  4. Liege

    Não Luciano Reis, quem acha que noções de igualdade e de justiça é coisa só de branco é justamente quem tenta desqualificar os direitos animais dizendo que eles são coisa de branco.

  5. Liege

    Como se absolutamente nada de bom pudesse vir da cultura WASP, o que nos leva ao outro extremo da discriminação.

  6. Liege

    Movimentos abolicionistas de escravos humanos e pelo sufrágio feminino também são fruto dessa cultura, mas não vejo ninguém usando isso para validar racismo e sexismo.

  7. Miriam de Souza Guerra Cunha

    Luciano, você, como sempre, foi brilhante. Seu modo claro e coerente de abordar o problema da falta de ética e de moral que lamentavelmente ainda temos com relação aos animais, me traz a certeza de que muitas consciências vão ser despertadas, iluminadas, e de que a indiferença vai dar lugar à compaixão. Agradeço a você por ser o grito daqueles que têm a voz e os gemidos da dor e da agonia sufocados pelo egoísmo humano.

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